Confira a resenha na íntegra: https://bibliofiliacotidiana.wordpress.com/2025/03/06/rosa-egipciaca-afeto-de-deus/
“Tenho Bárbara Simões em meus contatos no Facebook já há algum tempo, não sei precisar quanto, e sempre tive carinho por ela, mas não conhecia ainda sua literatura. Mais recentemente a vi postando algumas coisas referentes a um de seus livros e achei que ali tinha algo especial.
Ironicamente, não é esse mesmo o livro que trago aqui para resenha. O alvo dessa análise é “Rosa Egicíaca, Afeto de Deus”, livro lançado em 2024 e que me impressionou em vários aspectos, mostrando que eu tinha razão quando julguei que Bárbara é uma excelente escritora baseada nas frases desse outro livro – que um dia com certeza lerei.

Comecei a leitura sem fazer a menor ideia do que o livro se tratava. Parecia um nome feminino, mas poderia fazer referência à flor, e isso me chamou a atenção do quanto ainda nos é precária a informação de tudo o que não for eurocentrado. Rosa era uma africana traficada, escravizada, violentada das mais diversas formas e que se tornou santa.
Santa do ponto de vista popular, porque oficialmente, Rosa Maria Egipcíaca nunca foi reconhecida pela igreja. Da morte se sabe que foi em Portugal, aprisionada pela Inquisição, mas ao que tudo indica, não foi em fogueira.
O livro de Bárbara não se propõe biográfico, isso é inclusive apontado pelo comentário de Luiz Mott – ele sim biógrafo da santa – ao apontar o livro como uma “recriação” da vida de Rosa, e tece elogios aos quais concordo, destacando a beleza da linguagem empregada pela autora em sua obra.
O livro é dividido, na verdade, nos relatos de pessoas que tiveram contato com Rosa, como depoimentos para comprovar sua santidade ou falsidade, conforme a visão de cada, já que ela, mesmo com algumas comprovações de seus dons divinos, era também julgada “embusteira” por seus acusadores.
Ao longo das narrativas, vamos conhecendo diversas facetas de Rosa; em um momento a julgamos de fato uma santa, em outro uma mulher extremamente cruel que nunca abandonou genuinamente o meretrício em que foi obrigada a atuar por anos de sua vida. É como se ela fosse realmente duas, porque as visões se distanciam de forma contundente.
Dessa forma, temos todas versões não confiáveis, cada uma puxando para o lado da fé ou da descrença sobre ela. O que é impossível de ser ignorado é que Rosa sofreu todo tipo de violência. Independente se era santa ou embusteira, Rosa é um símbolo dos horrores marcados pela escravidão e pela perseguição perpretada na Inquisição, pela covardia dos homens, pela crueldade, e o pior, porque nada do que Rosa foi submetida – e outras personagens citadas ao longo do livro – efetivamente foi abandonado como prática.
A escravidão nos moldes anteriores à abolição pode não existir, mas o subjugo, a violência, a violação, os jogos de poder, a exploração, o abuso, a misoginia e a vitimização de pessoas negras, pessoas indígenas, mulheres e crianças nunca perderam de fato seu espaço na sociedade.
Em suma, nunca deixamos de ser uma civilização selvagem, por mais contraditório que o termo pareça. E talvez por isso Rosa se convertesse em Afeto, o dito zelador dos templos, quase um justiceiro em pequena escala, ou uma possessão demoníaca numa visão comum. O fato de o tal demônio se chamar Afeto é outro aspecto que traz mais brilho à narrativa.
A história de Rosa é controversa e Bárbara sabe jogar com esses elementos, além de apresentar uma escrita refinada (não esnobe, nem complexa, mas bonita de se ler), mostrando que sabia muito bem o que estava fazendo na construção de cada frase.
Foi um trabalho corajoso, e muito bem sucedido.
Rosa Egipcíaca, Afeto de Deus
Bárbara Simões
Malê: Rio de Janeiro, 2024
148 páginas”


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